sábado, 4 de setembro de 2010

Melancholia: uma constante em "O vermelho e o negro" de Stendhal


Melancolia vem do grego μελαγχολία - melagcholía; de μέλας - mélas, "negro" e χολή - cholé, bile.

Esse termo deriva da teoria Hipocrática dos quatro humores: sangüíneo, colérico, melancólico e fleumático, cada um deles eles associa-se a estação do ano, elemento, órgão e características, que para o melancólico são respectivmente: outono, terra baço e frio seco. Acreditava-se que todos os males físicos originavam-se do desequilíbrio entre esses quatro humores.


Durante o Romantismo Byroniano, de Shelley, e Alvares de Azevedo, predominava nas composições poéticas o
spleen, o mal-du-siècle, o tédio inevitável mediante a sociedade do século XIX, sem emoções que valessem a pena, com a crescente miséria advinda da recente exploração do proletariado, dandis sem introspecção filosófica que só sabem vestir-se elegantemente e mocinhas coquetes leitoras de romances que pensam apenas em se casar bem e estar na moda.

É nessa sociedade que se encontram as personagens do romance mais famoso de Stendhal, ''O vermelho e o negro'' (
Le rouge et le noir), que se presta a ser uma "Crônica de 1830", como se apressa a dizer seu sous-titre.

Julien Sorel, rapaz ambicioso e belo da província, é um alpinista social, mas nem por isso deixa de ser complexo, pois nem o próprio sabe o que sente ou pensa, e, graças à maestria de Stendhal podemos observar esse pathos ao longo de todo o livro, em todas as suas emoções e contradiçoes.

Julien tem um affair com a Mme de Rênal, esposa do prefeito de Verrières, e após desconfianças é obrigado a seguir seu rumo, e vai trabalhar com o Marquês de La Mole, e se vê admirado pela bela Mathilde-Marguerite de La Mole, uma jovem enfastiada com a época em que vive e sonha com os ideais de seus antepassados da Era das Cruzadas, na qual ela via mais heroísmo e motivos para viver. Não vê graça em nenhum cavalheiro da moda, zomba de todos e sente até prazer nisso, acha-os indignos de si, apesar do orgulho de se saber venerada por esses nobres. É obcecada pela história de seu antepassado Boniface de La Mole, amante da rainha Margarida que após ser decapitado, tem sua cabeça beijada e guardada pela rainha.

Julien após muita resistência interna acaba por se apaixonar pela moça, e se tornam amantes, porém o relacionamento tem altos e baixos, devido ao orgulho de ambos e à inconstância e arroubos de loucura da Mlle de La Mole, o que impede a plenitude do amor de ambos. Quando Mathilde se descobre grávida, consegue a muito custo obter permissão do altivo Marquês para se casar, porém após uma carta da Mme de Renal o delatando para o pai de Mathilde, tudo desmorona, e Julien atenta contra a vida da ex-amante que não morre. Na prisão Julien se dá conta de que ama ainda a Mme de Renal, deixando Mathilde com ciúmes. Julien é acusado e recebe pena de morte, por livre vontade, apesar dos esforços de Mathilde. Pelo menos esta pôde saciar sua fantasia de Rainha Margarida, de beijar a cabeça decapitada de seu amante.


Nessa obra desastrosa que desnuda a hipocrisia moral e o tédio do século XIX, talvez tenha sido apenas Mathilde quem conseguiu elevar-se da mediocridade inerente à sua época.



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