sábado, 24 de julho de 2010

La Carmagnole

Essa canção revolucionária remonta à Revoluçâo Francesa, e é uma de minhas favoritas!!
Apreciem!

Assistir ao video no YouTube (refiz o hiperlink!)



Madam' Véto avait promis {2x}

De faire égorger tout Paris {2x}

Mais le coup a manqué

Grace à nos canonniers

{au Refrain}


Refrain:

Dansons la carmagnole

Vive le son vive le son !

Dansons la carmagnole

Vive le son du canon !


Monsieur Véto avait promis {2x}

D'être fidèle à son pays {2x}

Mais il a manqué

Ne faisons plus quartier

{au Refrain}


Antoinette avait résolu {2x}

De nous faire tomber sur le cu {2x}

Mais son coup a manqué,

Elle a le nez cassé

{au Refrain}


Son mari se croyant vainqueur {2x}

Connaissait peu notre valeur {2x}

Va, Louis, gros paour,

Du temple dans la tour

{au Refrain}


Les suisses avaient promis {2x}

Qu'ils feraient feu sur nos amis {2x}

Mais comme ils ont sauté

Comme ils ont tous dansé

{au Refrain}


Quand Antoinette vit la tour {2x}

Elle voulut faire demi-tour {2x}

Elle avait mal au coeur

De se voir sans honneur

{au Refrain}




sexta-feira, 25 de junho de 2010

É tarde


Olha-me, ó virgem, a fronte!
Olha-me os olhos sem luz!
A palidez do infortúnio
Por minhas faces transluz;
Olha, ó virgem — não te iludas —
Eu só tenho a lira e a cruz.
Junqueira Freire

É tarde! É muito tarde!
Mont'Alverne


É tarde! É muito tarde! O templo é negro...
O fogo-santo já no altar não arde.
Vestal! não venhas tropeçar nas piras...
É tarde! É muito tarde!


Treda noite! E minh'alma era o sacrário!
A lâmpada do amor velava entanto,
Virgem flor enfeitava a borda virgem
Do vaso sacrossanto.


Quando Ela veio — a negra feiticeira —
A libertina, lúgubre bacante,
Lascivo olhar, a trança desgrenhada,
A roupa gotejante.


Foi minha crença — o vinho dessa orgia,
Foi minha vida — a chama que apagou-se,
Foi minha mocidade — o toro lúbrico,
Minh'alma — o tredo alcouce.


E tu, visão do céu! Vens tateando
O abismo onde uma luz sequer não arde?
Ai! não vás resvalar no chão lodoso...
É tarde! É muito tarde!


Ai! não queiras os restos do banquete!
Não queiras esse leito conspurcado!
Sabes? meu beijo te manchara os lábios
Num beijo profanado.


A flor do lírio de celeste alvura
Quer da lucíola o pudico afago...
O cisne branco no arrufar das plumas
Quer o aljôfar do lago.


É tarde! A rola meiga do deserto
Faz o ninho na moita perfumada...
Rola de amor! não vás ferir as asas
Na ruína gretada.


Como o templo, que o crime encheu de espanto,
Êrmo e fechado ao fustigar do norte,
Nas ruínas desta alma a raiva geme...
E cresce o cardo — a morte —.


Ciúme! dor! sarcasmo! — Aves da noite!
Vós povoais-me a solidão sombria,
Quando nas trevas a tormenta ulula
Um uivo de agonia! ...

.................................................................


É tarde! Estrela-d'alva! o lago é turvo.
Dançam fogos no pântano sombrio.
Pede a Deus que dos céus as cataratas
Façam do brejo — um rio!


Mas não!... Somente as vagas do sepulcro
Hão de apagar o fogo que em mim arde...
Perdoa-me, Senhora!... Eu sei que morro...
É tarde! É muito tarde!...



Castro Alves

Adormecida


Ses longs cheveux épars Ia couvrent tout entière.
La croix de son collier repose dans sa main,
Comme pour témoigner qu'elle a fait sa prière,
Et qu'elle va Ia faire en s'éveillant demain.

(A. de Musset)



Uma noite, eu me lembro... Ela dormia
Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão... solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.


'Stava aberta a janela. Um cheiro agreste
Exalavam as silvas da campina...
E ao longe, num pedaço do horizonte,
Via-se a noite plácida e divina.


De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilando ao tom das auras,
Iam na face trêmulos — beijá-la.


Era um quadro celeste!... A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a...
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...


Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!


E o ramo ora chegava ora afastava-se...
Mas quando a via despeitada a meio,
Pra não zangá-la... sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...


Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
"Ó flor! - tu és a virgem das campinas!
"Virgem! - tu és a flor de minha vida!..."


Castro Alves

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Ode à l'Absinthe - Alfred de Musset


Trago-vos mais uma tradução de minha autoria, dessa vez de uma poema atribuído a Alfred de Musset (1810-1857), um dos mais expressivos nomes do Romantismo Francês, sobre o absinto, Bebida tão em voga na França do século 19 à Belle Époque. Espero ter atingido a magnitude do poema em português.

Degustem.



Ode ao Absinto

Oh, verde licor, Nêmesis da orgia!

Freqüentemente, passando por meus lábios rubros,

Você me deu de beber e me fez esquecer meus males;

Eu vi um gigante enpalidecer sob seu abraço!

Oh, irmã da Morte! Traga absinto;

Que entornaremos aos borbotões!


É hora de enfim agradecer-lhe:

Quem não conhece toda a poesia

Uma garrafa de cristal pode portar ao seu lado,

Este quase nunca está perto de uma mesa redonda,

Vi um globos oculares errantes e o mundo

valsar em caretas.


Ele não sustenta que seu coração falha

Que não é sobre a terra coisa que valha

Do absinto ébrio ao sono radiante

Quem pode, quando deseja, durante seu sonho estranho,

Deixando o corpo humano, sentir asas de anjo

Se dirigir aos céus.


Eu o amo! Aos mortais sua força é mais funesta

Que o raio, o fogo, os estilhaços, a peste,

E já o vi com freqüência derrubar o soldado,

Despreocupado de tudo, contentando sua vontade,

Embora sabendo muito bem o que lhe dá vida

Que poupa o combate.


Amo teu forte odor e teu fluxo de um verde escuro

Que deixa lança-se em meio a sua sombra

Chamas cor de sangue ao longo do cristal,

Como se o Senhor, em sinal de cautela,

Quisesse misturar ao verde da esperança

Algum sinal fatal.


Bela como o mar, como suas ondas cruéis,

Você pode quando quiser, esconder como ele,

Sob uma aparente calma seus instintos irritáveis,

E seu fluxo se transforma num oceano de cabeças,

Que batem rindo, nas noites festivas,

Nos portões das cidades.


Para mim, que não quero chegar à velhice,

Eu quero contra tua força tentar minha fraqueza,

Combatendo-lhe, abraçá-lo corpo a corpo.

E quero ver, hoje, num duelo terrível,

Se você pode manter seu título de invencível:

Nossa testemunha será a morte!



Ode à l’Absinthe

Salut, verte liqueur, Némésis de l’orgie!
Bien souvent, en passant sur ma lèvre rougie,
Tu m’as donné l’ivresse et l’oubli de mes maux;
J’ai vu plus d’un géant pâlir sous ton étreinte!
Salut, sœur de la Mort! Apportez de l’absinthe;
Qu’on la verse à grands flots!


Il est temps à la fin que je te remercie:
Celui qui ne sait pas toute la poésie
Qu’un flacon de cristal peut porter en son flanc,
Celui-là n’a jamais près d’une table ronde,
Vu d’un œil égaré les globes et le monde
Valser en grimaçant.


Il ne soutiendra pas sans que son cœur défaille
Qu’il n’est pas sur la terre une chose qui vaille
De l’ivrogne absinthé le sommeil radieux,
Qui peut, quand il lui plaît, durant son rêve étrange,
Quittant le corps humain, sentir des ailes d’ange
L’emporter dans les cieux.


Moi, je t’aime! Aux mortels ta force est plus funeste
Que la foudre, le feu, la mitraille, la peste,
Et je te vis souvent terrasser le soldat,
Insoucieux de tout, contentant son envie,
Quoique sachant trop bien qu’il te donne sa vie
Qu’épargna le combat.


J’aime ta forte odeur et ton flot d’un vert sombre
Qui laisse s’élancer, au milieu de son ombre
Des feux couleur de sang tout le long du cristal,
Comme si le Seigneur, en signe de prudence,
Avait voulu mêler à ton vert d’espérance
Quelque signe fatal.


Belle comme la mer, comme ses flots cruelle,
Tu peux quand tu le veux aussi, cacher comme elle,
Sous un calme apparent tes instincts irrités,
Et ton flux fait tourner un océan de têtes,
Qui battent en riant, les soirs des jours de fêtes,
Les portes des cités.


Pour moi, qui ne veux pas atteindre la vieillesse,
Je veux contre ta force essayer ma faiblesse,
Combattre contre toi, t’étreindre corps à corps.
Je veux voir, aujourd’hui, dans un duel terrible,
Si tu peux soutenir ton titre d’invincible:
Notre témoin sera la mort!


Alfred de Musset

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Fleur exotique - Armand Renaud

Meus fiéis seguidores,

Aproveitei o feriado para fazer mais uma postagem no "Sementes", e como acordasse disposta a tal, apresento-lhes mais uma tradução de minha autoria, desta vez de um poema em francês de Armand Renaud (1836-1895), em estilo Orientalista, aproveitando para expôr algumas pinturas no mesmo estilo.

Bonne lecture, mes amis!


Flor exótica



Você deseja esse corpo lânguido e forte a tempo,

Feito o de um anjo místico e o de um belo animal,

Esses cabelos escuros, contrastam com o palor do torso,

Esses grandes olhos repousam em sua calma habitual.


Mas você não sabe se todo esse conjunto

De viçosa carne em cálice de aromas,

Vem do profundo do ser, ou só se estende à casca!

Não saberá jamais, a ciência é o mal!


Um alaúde entre os dedos, evitando o peso de um véu,

Deixe-a em sua alcova que a noite torna estrelada,

Das angústias do coração cantar o Réquiem.


Ela vem do Oriente onde o amor e o mistério

Não procuram senão o êxtase, e deixe-a calar,

O enigma feminino recendendo no harém.



Fleur exotique


Vous désirez ce corps langoureux dans la force,
Fait d’un ange mystique et d’un bel animal,
Ces cheveux bruns, contraste à la pâleur du torse,
Ces grands yeux reposant dans le calme normal.

Mais vous ne savez pas si toute cette amorce
De chair épanouie en calice aromal,
Vient du profond de l’être, ou ne tient qu’à l’écorce !
Ne le sachez jamais, la science est le mal !


Un luth entre les doigts, fuyant le poids d’un voile,
Laissez-la, dans la nuit du boudoir qu’elle étoile,
Des angoisses du cœur chanter le Requiem.

Elle vient d’Orient où l’amour est mystère.
N’y cherchez que l’extase, et laissez-la se taire,
L’énigme féminine aux senteurs de harem.


Armand Renaud


terça-feira, 25 de maio de 2010

É ela! É ela! É ela! É ela


É ela! É ela! - murmurei tremendo,
E o eco ao longe murmurou - é ela!
Eu a vi... minha fada aérea e pura -
A minha lavadeira na janela!

Dessas águas-furtadas onde eu moro
Eu a vejo estendendo no telhado
Os vestidos de chita, as saias brancas;
Eu a vejo e suspiro enamorado!

Esta noite eu ousei mais atrevido
Nas telhas que estalavam nos meus passos
Ir espiar seu venturoso sono,
Vê-la mais bela de Morfeu nos braços!

Como dormia! Que profundo sono!...
Tinha na mão o ferro do engomado...
Como roncava maviosa e pura!...
Quase caí na rua desmaiado!

Afastei a janela, entrei medroso...
Palpitava-lhe o seio adormecido...
Fui beijá-la... roubei do seio dela
Um bilhete que estava ali metido...

Oh! de certo... (pensei) é doce página
Onde a alma derramou gentis amores;
São versos dela... que amanhã de certo
Ela me enviará cheios de flores...

Tremi de febre!Venturosa folha!
Quem pousasse contigo neste seio!
Como Otelo beijando a sua esposa,
Eu beijei-a a tremer de devaneio...

É ela! É ela! - repeti tremendo;
Mas cantou nesse instante uma coruja...
Abri cioso a página secreta...
Oh! Meu Deus! Era um rol de roupa suja!

Mas se Werther morreu por ver Carlota
Dando pão com manteiga às criancinhas
Se achou-a assim mais bela - eu mais te adoro
Sonhando-te a lavar as camizinhas!

É ela! É ela! meu amor, minh'alma,
A Laura, a Beatriz que o céu revela...
É ela! É ela! - murmurei tremendo,
E o eco ao longe suspirou - é ela!


Álvares de Azevedo

terça-feira, 18 de maio de 2010

Volúpia



Tenho-te, do meu sangue alongada nos veios,
à tua sensação me alheio a todo o ambiente;
os meus versos estão completamente cheios
do teu veneno forte, invencível e fluente.

Por te trazer em mim, adquiri-os, tomei-os,
o teu modo sutil, o teu gesto indolente.
Por te trazer em mim moldei-me aos teus coleios,
minha íntima, nervosa e rúbida serpente.

Teu veneno letal torna-me os olhos baços,
e a alma pura que trago e que te repudia,
inutilmente anseia esquivar-se aos teus laços.

Teu veneno letal torna-me o corpo langue,
numa circulação longa, lenta, macia,
a subir e a descer, no curso do meu sangue.

Gilka Machado

domingo, 16 de maio de 2010

Cantiga


Cantiga



I


Em um castelo doirado
Dorme encantada donzela;
Nasceu — e vive dormindo
— Dorme tudo junto dela.


Adormeceu-a sonhando
Um feiticeiro condão,
E dormem no seio dela
As rosas do coração.


Dorme a lâmpada argentina
Defronte do leito seu:
Noite a noite a lua triste
Dorme pálida no céu.


Voam os sonhos errantes
Do leito sob o dossel,
E suspiram no alaúde
As notas do menestrel.


E no castelo, sozinha,
Dorme encantada donzela:
Nasceu — e vive dormindo
— Dorme tudo junto dela.


Dormem cheirosas abrindo
As roseiras em botão,
E dormem no seio dela
As rosas do coração!



II


A donzela adormecida
É a tua alma santinha,
Que não sonha nas saudades
E nos amores da minha


— Nos meus amores que velam
Debaixo do teu dossel,
E suspiram no alaúde
As notas do menestrel!


Acorda, minha donzela!
Foi-se a lua — eis a manhã
E nos céus da primavera
A aurora é tua irmã!


Abriram no vale as flores
Sorrindo na fresquidão:
Entre as rosas da campina
Abram-se as do coração.


Acorda, minha donzela,
Soltemos da infância o véu...
Se nós morremos, num beijo,
Acordaremos no céu!

Alvares de Azevedo


Deusa incruenta


Deusa incruenta


À imprensa

Ao Grêmio Literário`

Antítese a "Terribilis Deá"


QUANDO ELA se alteou das brumas da Alemanha,
Alva, grande, ideal, lavada em luz estranha,
Na destra suspendendo a estrela da manhã...
O espasmo de um fuzil correu nos horizontes...
Clareou-se o perfil dos alvacentos montes,
Dos cimos do Peru... às grimpas do Hindustã!!...


Tinha na mão brilhante a trompa bronzeada!
Vestia o longo véu da vestal inspirada!
Era Palas talvez! ... talvez um serafim!...


O albor de Beatriz no imaginar do Dante!. . .
O olhar da Pitonisa em trípode gigante!
Do mundo — Anjo da guarda! enorme querubim!...


Ergueu-se! Olhou de roda os plainos do Universo...
No peito das Nações seu braço longo, imerso
Palpou-lhe o estrepitar do estoso coração!...
— Gênio e santa! — a mulher um grito ergueu profundo,
Abriu braços de mãe — p'ra acalentar o mundo,
Asas de Serafim — p'ra abrigar a amplidão.


Rugiram de terror ao ver-lhe o rir sublime...
O sátrapa, o chacal, a tirania, o crime...
O abutre, o antro, o mocho, o erro, a escravidão!
Disse a gruta p'ra o céu: "Que deusa é esta ingente?"
O espaço respondeu: "É a Diva do Ocidente!...
A consciência do mundo! o Eu da criação!"


E quando Ela surgiu, — os pólos se abraçaram!
O Zênite e o Nadir, — surpresos, se escutaram!
O Norte - ouviu, chorando, o soluçar — do Sul!
O abafado estertor do servo miserando,
Da deusa no clarim gigante reboando,
Clamou da terra — verde... ao firmamento — azul! ...


Uma noite... no chão da Grécia - peregrina,
A Deusa ajoelhou... da poeira divina
O fantasma de Homero então viram surgir!
"Ainda viajar" diz o velho em assombro...
"Quem és? "Eu sou teu guia... Encosta-te ao meu ombro."
— "Então, levas-me longe?" — "Eu levo-te ao porvir!"


No forum colossal da sempiterna Roma
De Cícero a figura apaixonada assoma
E de novo retumba o verbo atroador...
Tem hoje por tribuna imensa — a eternidade,
Por Forum o universo! é plebe — a humanidade!
A seus pés as nações! os séculos — em redor!


Quando a Bastilha vil tremia desraigada
E da mole ao sopé soava a martelada,
A catapulta humana, a voz de Mirabeau!...
Quando aquele ideal Quasímodo do abismo
Se agitava a ulular dos Reis no cataclismo,
— Sineiro que rebate aos séculos tocou!...


Eriçado, feroz, suado, monstruoso,
Magnífico de horror, divino, proceloso...
A Deusa se atirou nos braços do Titão!!
Mas, sentindo que o Deus inteiriçado tomba...


Dos tronos co'a madeira — arvora-lhe a hecatomba!
Co'as púrpuras dos reis — acende-lhe um clarão!


Seguiu do Childe errante o iate aventureiro...
Beijou-lhe a palidez ao Lord-Forasteiro,
De Veneza, a lasciva — à lânguida 'Stambul!
E, quando o Lara-Inglês expira, o Pajem louro
É Ela!... E fala... e aponta o firmamento de ouro,
Gulnar lembra a Conrado o seu país de azul!...


Quando a Polônia casta, essa Lucrécia nova,
Para fugir — a um leito, arroja-se a — uma cova...
E mata-se de nojo... aos beijos de um Czar...
Uma atriz funeral surge do negro palco,
Tira à chaga o punhal, descobre o catafalco...
E deixa sobre a Europa... o ferro gotejar!


— Amazona sombria — ela arrebata o Goethe
Na garupa a fumar do tártaro ginete,
Pela noite hibernal dos séculos ao sabá!...
Anjo, às vezes, no céu fatídico revca,
A buzinar de cobre os longos ares troa...
Ergue-se a meio o chão do escuro Josafá!


Salve, Deusa incruenta! Imensa Divindade!
— Barqueira desse mar — chamado a Eternidade! —
Que às margens do Cocito embarcas os heróis...
Em prol da Humanidade a Deus levas o grito.
Tens os olhos — na terra' a boca — no infinito!
A meia lua aos pés! Na cabeleira — os sóis!!!


Quando Ela se alteou nas brumas da Alemanha,
Alva, grande, ideal, lavada em luz estranha,
Na destra suspendendo a estrela da manhã...
O espasmo de um fuzil correu nos horizontes ...
Clareou-se o perfil dos alvacentos montes
Dos cimos do Peru às grimpas do Hindostã!!...

..................................................

Castro Alves

domingo, 9 de maio de 2010

Ode on Melancholy- John Keats


ODE ON MELANCHOLY.


No, no! go not to Lethe, neither twist
Wolf's-bane, tight-rooted, for its poisonous wine;
Nor suffer thy pale forehead to be kiss'd
By nightshade, ruby grape of Proserpine;
Make not your rosary of yew-berries,
Nor let the beetle, nor the death-moth be
Your mournful Psyche, nor the downy owl
A partner in your sorrow's mysteries;
For shade to shade will come too drowsily,
And drown the wakeful anguish of the soul.


But when the melancholy fit shall fall
Sudden from heaven like a weeping cloud,
That fosters the droop-headed flowers all,
And hides the green hill in an April shroud;
Then glut thy sorrow on a morning rose.
Or on the rainbow of the salt sand-wave,
Or on the wealth of globed peonies;
Or if thy mistress some rich anger shows,
Emprison her soft hand, and let her rave.
And feed deep, deep upon her peerless eyes.

She dwells with Beauty—Beauty that must die;
And Joy, whose hand is ever at his lips
Bidding adieu; and aching Pleasure nigh,
Turning to poison while the bee-mouth sips:
Ay, in the very temple of Delight
Veil'd Melancholy has her sovran shrine,
Though seen of none save him whose strenuous tongue
Can burst Joy's grape against his palate fine;
His soul shall taste the sadness of her might,
And be among her cloudy trophies hung.


John Keats, 1819



Ode an die Freude



O Freunde, nicht diese Töne!
sondern laßt uns angenehmere anstimmen,
und freudenvollere.

Freude, schöner Götterfunken,
Tochter aus Elysium,
wir betreten feuertrunken,
Himmlische, dein Heiligtum!
Deine Zauber binden wieder,
was die Mode streng geteilt;
alle Menschen werden Brüder,
wo dein sanfter Flügel weilt.

Wem der große Wurf gelungen,
eines Freundes Freund zu sein,
wer ein holdes Weib errungen,
mische seinen Jubel ein!
Ja, wer auch nur eine Seele
sein nennt auf dem Erdenrund!
Und wer’s nie gekonnt, der stehle
weinend sich aus diesem Bund.

Freude trinken alle Wesen
an den Brüsten der Natur;
alle Guten, alle Bösen
folgen ihrer Rosenspur.
Küsse gab sie uns und Reben,
einen Freund, geprüft im Tod;
Wollust ward dem Wurm gegeben,
Und der Cherub steht vor Gott!

Froh, wie seine Sonnen fliegen
Durch des Himmels prächt’gen Plan,
laufet, Brüder, eure Bahn,
freudig, wie ein Held zum Siegen.


Seid umschlungen Millionen.
Diesen Kuß der ganzen Welt!
Brüder! überm Sternenzelt
muß ein lieber Vater wohnen
Ihr stürzt nieder Millionen?
Ahnest du den Schöpfer, Welt?
Such’ ihn über’m Sternenzelt!
Über Sternen muß er wohnen.



quinta-feira, 22 de abril de 2010

Hino ao sono


Hino ao sono

Ó sono! ó noivo pálido
Das noites perfumosas,
Que um chão de nebulosas
Trilhas pela amplidão!
Em vez de verdes pâmpanos,
Na branca fronte enrolas
As lânguidas papoulas,
Que agita a viração.


Nas horas solitárias,
Em que vagueia a lua,
E lava a planta nua
Na onda azul do mar,
Com um dedo sobre os lábios
No vôo silencioso,
Vejo-te cauteloso
No espaço viajar!


Deus do infeliz, do mísero!
Consolação do aflito!
Descanso do precito,
Que sonha a vida em ti!
Quando a cidade tétrica
De angústia e dor não geme...
É tua mão que espreme
A dormideira ali.


Em tua branca túnica
Envolves meio mundo...
E teu seio fecundo
De sonhos e visões,
Dos templos aos prostíbulos,
Desde o tugúrio ao Paço,
Tu lanças lá do espaço
Punhados de ilusões! ...


Da vide o sumo rúbido,
Do hatchiz a essência,
O ópio, que a indolência
Derrama em nosso ser,
Não valem, gênio mágico,
Teu seio, onde repousa
A placidez da lousa
E o gozo de viver...


O sono! Unge-me as pálpebras...
Entorna o esquecimento
Na luz do pensamento,
Que abrasa o crânio meu.
Como o pastor da Arcádia,
Que uma ave errante aninha...
Minh'alma é uma andorinha...
Abre-lhe o seio teu.


Tu, que fechaste as pétalas
Do lírio, que pendia,
Chorando a luz do dia
E os raios do arrebol,
Também fecha-me as pálpebras...
Sem Ela o que é a vida?
Eu sou a flor pendida
Que espera a luz do sol.


O leite das eufórbias
P'ra mim não é veneno...
Ouve-me, ó Deus sereno!
Ó Deus consolador!
Com teu divino bálsamo
Cala-me a ansiedade!
Mata-me esta saudade,
Apaga-me esta dor.


Mas quando, ao brilho rútilo
Do dia deslumbrante,
Vires a minha amante
Que volve para mim,
Então ergue-me súbito...
É minha aurora linda...
Meu anjo... mais ainda...
É minha amante enfim!


Ó sono! Ó Deus noctívago!
Doce influência amiga!
Gênio que a Grécia antiga
Chamava de Morfeu,
Ouve!...E se minhas súplicas
Em breve realizares...
Voto nos teus altares
Minha lira de Orfeu!


Castro Alves



Hebréia

Caros seguidores,
Bem, a postagem desse sublime poema de Castro Alves foi mais por um pretexto para contextualizar as belas imagens Orientalistas tipicamente Românticas, que fazem parte do meu acervo digital e que selecionei aqui. Os autores das pinturas são respectivamente Elisabeth Vigée-Lebrun, Friedrich von Amerling e Francesco Hayez. Apreciem.

Carolina Marx




Flos campi et lilium convallium.
(Cântico dos Cânticos)


Pomba d'esp'rança sobre um mar d'escolhos!
Lírio do vale oriental, brilhante!
Estrela vésper do pastor errante!
Ramo de murta a recender cheirosa! ...


Tu és, ó filha de Israel formosa...
Tu és, ó linda, sedutora Hebréia...
Pálida rosa da infeliz Judéia
Sem ter o orvalho, que do céu deriva!


Por que descoras, quando a tarde esquiva
Mira-se triste sobre o azul das vagas?
Serão saudades das infindas plagas,
Onde a oliveira no Jordão se inclina?


Sonhas acaso, quando o sol declina,
A terra santa do Oriente imenso?
E as caravanas no deserto extenso?
E os pegureiros da palmeira à sombra?!


Sim, fora belo na relvosa alfombra,
Junto da fonte, onde Raquel gemera,
Viver contigo qual Jacó vivera
Guiando escravo teu feliz rebanho ...


Depois nas águas de cheiroso banho
— Como Susana a estremecer de frio —
Fitar-te, ó flor do babilônio rio,
Fitar-te a medo no salgueiro oculto ...


Vem pois!... Contigo no deserto inculto,
Fugindo às iras de Saul embora,
Davi eu fora, — se Micol tu foras,
Vibrando na harpa do profeta o canto ...


Não vês?... Do seio me goteja o pranto
Qual da torrente do Cédron deserto!...
Como lutara o patriarca incerto
Lutei, meu anjo, mas caí vencido.


Eu sou o lótus para o chão pendido.
Vem ser o orvalho oriental, brilhante!...
Ai! guia o passo ao viajor perdido,
Estrela vésper do pastor errante! ...


Castro Alves





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quarta-feira, 7 de abril de 2010

Coragem



Bom, devido ao caos urbano instalado no RJ devido às chuvas torrenciais, não tive aulas na faculdade tanto ontem quanto hoje, o que me trouxe tempo livre, que estou investindo nessa postagem.
Trago-vos aqui um poema do ciclo de canções de Schubert "Der Winterreise", (Jornada de inverno), traduzido para a língua de Camões.
Os poemas são de autoria de Wilhelm Müller poeta Romântico alemão, e descrevem de forma alegórica a jornada de um rapaz após a desilusão de um amor infiel. O inverno descrito durante os poemas na verdade é metáfora para a alma do eu-lírico, agora estéril e descrente como o inverno, e há quem diga que ao fim de sua trágica jornada, o jovem enlouquece. É interessante perceber que há nesse Zyclus a imagem do andarilho (Der Wanderer) tão preciosa aos Românticos alemães.
O poema Mut (Coragem) é um de meus favoritos, pois há nele ceticismo e ironia, traços nem tão Românticos assim.
Espero que apreciem.


Coragem

A neve voa sobre meu rosto,
Eu a sacudo.
Quando meu coração no meu peito chora,
Eu canto clara e alegremente.

Eu não ouço o que ele diz,
Pois não tenho ouvidos,
Eu não o sinto lamentar,
Lamentar é para os tolos.

Feliz pelo mundo afora
Contra todo o vento e o mau tempo!
Se não há Deus na Terra,
Nós mesmos seremos deuses!


Mut

Fliegt der Schnee mir ins Gesicht,
Schüttl' ich ihn herunter.
Wenn mein Herz im Busen spricht,
Sing' ich hell und munter.

Höre nicht, was es mir sagt,
Habe keine Ohren;
Fühle nicht, was es mir klagt,
Klagen ist für Toren.

Lustig in die Welt hinein
Gegen Wind und Wetter!
Will kein Gott auf Erden sein,
Sind wir selber Götter!