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sexta-feira, 1 de julho de 2011

Le affinità elettive (1996), de Paolo e Vittorio Taviani

A partir do romance de Goethe As afinidades eletivas (Die Wahlverwandtschaften, 1809), o filme dos irmãos Paolo e Vittorio Taviani recria a bela história do casal Carlotta (Isabelle Huppert) e Edoardo (Jean-Hugues Anglade) que descobre novas relações afetivas com dois conhecidos que se tornam hóspedes de sua casa de campo: Ottillia (Marie Gillain) e Ottone (Fabrizio Bentivoglio).

Para começar, o que vem a ser uma “afinidade eletiva”? Este termo vem das Ciências Naturais, e Goethe, como muitos eruditos de sua época não se detinham a estudar apenas sua Arte, a Literatura em seu caso, mas também Ciências, Filosofia, Política. Devemos lembrar dos estudos de Goethe que o fizeram criar inclusive uma Teoria das cores.
Afinidade eletiva é uma propriedade dos elementos tem de se unirem de acordo com afinidades, que se desfazem na possibilidade de uma união com outros elementos com os quais possuem maior afinidade. Exemplo visual:

AB + CD → AD + BC

A é par de B. C é par de D. Aparentemente estão em equilíbrio, mas quando os quatro elementos se juntam, percebe-se que A deixa B e se une a D por ter mais afinidade a D que a B. C cria uma nova união com B pelo mesmo motivo.
Assim, desfazem-se as relações iniciais e formam-se novas uniões.

Isso ocorre com os dois casais da história, há uma troca afetiva de casais, Carlotta apaixona-se por Ottone, amigo de seu marido, e Edoardo apaixona-se por Ottilia, jovem órfã criada por Carlotta, e que estuda num colégio interno. O casal principal descobre novas afinidades e semelhanças que não possuíam entre si mas possuem com seus novos pares.

Apesar de atentarem para a obviedade das afinidades cruzadas, os personagens preferem optar por dissimulá-las e tocar a vida como se nada tivesse acontecido. Entretanto, nada voltará a ser como era antes, pois a vida dos quatro desventurados personagens mudara para sempre.

O clima de angústia presente nos corações dos quatro personagens nos contagia, e a melancolia reinante nas cenas nos oprime, o que torna o filme altamente catártico, além do tema, que aborda dilemas sociais ainda hoje difíceis de serem superados por muitos casais.

A delicadeza com que o tema é tratado, os belos cenários e figurinos, as doces trocas de olhares entre os personagens, a melancólica trilha sonora, tudo contribui para tornar o filme maravilhoso. Fora o fato de que tem por base um romance do grandioso Goethe, que ainda não li ainda mas pretendo fazê-lo as soon as posible (o problema é esse ‘possible’!).


Link para o filme no YouTube (Tem o filme completo composto de 10 partes no site.)







Carlotta e Edoardo








Edoardo, Carlotta e Ottone





Ottone, Carlotta e Edoardo












Ottone, Carlotta, Ottilia e Edoardo










Edoardo e Ottone



Ottone e Edoardo
















Carlotta e Ottilia







Ottilia e Edoardo































quinta-feira, 16 de junho de 2011

Mephisto (1981) de István Szabó

“Ich bin nur ein Schauspieler!”





O filme narra a história de um ator provinciano que utiliza as possibilidades de ascensão em sua carreira durante o Nazismo na Alemanha representando os ideais do regime, apesar de sua -aparente- alienação política. A história do filme baseia-se no livro Mephisto (1936) de Klaus Mann, que narra a biografia de seu cunhado, o ator Gustaf Gründgens, o qual fazia especial sucesso sob a pele do Mephisto de Fausto, uma das poucas peças que não eram censuradas a época, talvez por não ter conteúdo político e por representar “uma obra-prima criada por um alemão legítimo, ou seja, Arte Alemã”.





O filme retrata muito bem a questão da dicotomia Bem X Mal que todos carregam em seu interior, e a luta interior de Hendrik Höfgen (Klaus Maria Brandauer) entre o sucesso que sempre desejou e agora que caiu nas graças do 1º Ministro o obtém, e sua consciência que percebe que ele está vendendo sua alma a um regime assassino e monstruoso. Apesar de interpretar com maestria o demônio Mephisto e representar o Povo Alemão durante o III Reich, ele tem os olhos doces e meigos e o aperto de mão suave, como é dito no filme. Na verdade, o verdadeiro Mephisto da história, é o 1º ministro, pois é ele quem faz o papel de sedução competente a forças malignas em nossa cultura - isso sem esquecer o cargo que ele ocupa e em que regime!.





Hendrik é na verdade Fausto, pois apesar de sua sede por fama, poder e prestígio, arrogância e vaidade, é um homem com um bom coração, que todo o tempo afirma a si mesmo “Ich bin nur ein Schauspieler!” (Sou apenas um ator!), uma frase que considero a síntese da obra. Ele tenta se convencer de que um ator sempre será um ator, independente de época ou regime político, e que sua vida é nos palcos, dentro do teatro, e não metido com discussões políticas, no entanto, essa linha de raciocínio que ele usa para convencer as pessoas à sua volta acaba por não convencer nem a si mesmo. Boa parte do filme foca nesse embate psicológico entre o Fausto e o Mephisto interiores de Hendrik.





Um ponto do filme que eu particularmente percebi, mas não sei se condiz com as intenções do filme foi quanto a uma suposta homossexualidade de Hendrik, demonstrada por meio de gestos e jeitos do personagem, e que poderia ter relação com o Mephisto da vida real, Gustaf Gründgens, que era homossexual, apesar de casado com a irmã do autor (apesar disso não constar no livro para evitar problemas). Percebe-se também um imenso narcisismo e megalomania do personagem, em diversos momentos, mas também não sei se foi intensional.





Enfim, um belo filme que explora a filosofia, psicologia humana e ainda tem trechos de encenação do Fausto de Goethe (que já li três vezes e venero!), e que nos ajuda a perceber que todos somos tal qual Hendrik: um amálgama de Fausto e Mephisto em eterno conflito e coexistência. E ganhou o Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro em 1982.










































quarta-feira, 15 de junho de 2011

Faust, de F. W. Murnau, 1926

O filme em questão, apesar de ser uma adaptação do clássico Fausto de Johann Wolfgang von Goethe, é a adaptação definitiva, pois capta a essência do livro.

Tanto Goethe quanto Murnau exaltam o otimismo em relação ao humano: desde que haja amor -Liebe!- haverá salvação.

É o segundo filme de Murnau que assisto, depois do seu famigerado Nosferatu tao maravilhoso quanto Faust.

Ao ler o nome de Emil Jannings como Mephisto sabia já haver ouvido esse nome: é o professor Rath d' O anjo azul, que contracena com a jovem Marlene Dietrich. Percebemos o imenso talento do ator ao assistir os dois filmes, pois num filme mudo e outro já com fala e em papeis completamente diferentes (o demoníaco Mephisto e o tímido e inocente Professor), demonstrando toda sua versatilidade.

Infelizmente, Herr Jannings envolveu-se com o regime Nazista fazendo inúmeros filmes de propaganda, o que fez com que não conseguisse mais atuar após a 2a Guerra Mundial, uma pena!

Camilla Horn faz uma doce Gretchen, com um rostinho típico das atrizes dos anos 1920, talvez pela maquiagem, e Gösta Eckman um belíssimo e convincente Fausto, esbanjando juventude após o pacto com Mefistófeles (pelo menos nesse ponto o pacto valeu a pena!).

O filme possui fotografia com permanente jogo de luz e sombra, demonstrando visualmente a dicotomia deus X demônio, céu X inferno. Magnífico.

Deixo-vos algumas belas imagens desse filme e um -precioso- link para que os senhores assistam ao filme, agora mesmo se possível.

Saudações,
Carolina M.

Assista ao filme no YouTube



















terça-feira, 5 de abril de 2011

Concepções de Goethe acerca do mundo II: Werther, sua época, sua Weltanschauung


Nesta segunda postagem da série Concepções de Goethe acerca do mundo, nosso assunto será o romance epistolar ‘Os sofrimentos do jovem Werther’, de Goethe Uma das mais famosas obras do escritor Wilhelm Wolfgang von Goethe, Die Leiden des jungen Werthers (Os sofrimentos do jovem Werther) é muitas vezes interpretado de forma simplista, focando muito mais no Liebeschmerz (sofrimento de amor) do protagonista do que em seu Weltanschauung (visão de mundo).

Venho a expressar minha opinião acerca daquilo que muitas vezes deixado de lado durante uma leitura menos atenta da obra, embasando minhas teorias por meio de excertos do livro.



1) Werther é um andarilho (Wanderer)


Ad principium, Werther encarna um tipo caro ao Romantismo Alemão, a figura do Wanderer (algo que podemos traduzir como viandante, caminhante, andarilho), que podemos encontrar em quadros como no quadro ‘Viandante sobre um mar de névoa’ (Der Wanderer uber Nebelsee) do pintor Caspar David Friedrich (pintura abaixo), em ciclos de canções como Winterreise e Die Schöne Müllerin de Franz Peter Schubert, em poemas de Heinrich Heine p. ex. Esse personagem é representado pelo jovem de compleição frágil e delicada, de filosofia puramente Romântica, melancólico, contemplativo e impressionável, bastante propenso à loucura e delírios, mas acima de tudo um idealista, capaz de se sacrificar por seus ideais, que percorre longas distâncias em viagem e entra em contado com a inspiradora natureza selvagem alemã, suas paisagens inebriantes,seu povo, longe do ambiente urbano, numa atitude de fugere urbem (cara aos Neoclássicos p. ex.), buscando aventuras e alimento para sua alma sensível.


Carta de 16/06/1772

“Sim, sou um simples andarilho, um viajante que percorre a terra! E vocês, o que são?”


Carta de 04/05/1771

“A cidade, em si é desagradável, mas, nos arredores a natureza é incrivelmente bela.”



2) Descrição da cor local – paisagens, emoções daí vivenciadas


Werther nos descreve com minúcia os locais por onde passa: as belas paisagens alemãs, os habitantes locais e as histórias que o povo lhe conta, suas relações com as pessoas, mas sempre misturando uma visão objetiva, real, com uma visão subjetiva, nostálgica e pessoal, como no trecho a seguir, excelente exemplo disso:


Carta de 09/05/1772

“Com toda a devoção de um peregrino, visitei o lugar em que nasci e muitos sentimentos e impressões invadiram-me.”

(...)

“Diante de mim as montanhas que tantas vezes me encantaram. Eu podia passar horas e horas nesse lugar desejando transpor aquelas alturas, com o pensamento perdido no seio dos bosques e dos vales, que se mostravam a meus olhos na serena luz do fim da tarde.”



3) O Romance é Epistolar


O fato de se tratar de um romance epistolar a um amigo íntimo -Wilhelm- permite que Werther descreva claramente sua opinião acerca dos lugares por onde anda, analise personagens com as quais esbarra, sem o véu da hipocrisia e das convenções sociais expressando-se com sinceridade e transparência como se verá nos seguintes itens.


4) Análise da sociedade de classes de sua época


Tomando o item anterior como partida, Werther faz um retrato vivo e cru da burguesia e da nobreza de sua época, não poupando termos e comentários ácidos para descrever a hipocrisia reinante nos frívolos salões de sua época. Percebe-se também a atitude ambígua de Werther quanto à sua própria posição social, que lhe proporciona privilégios, mas é vista com desdém e afastamento pelos nobres e com desconfiança pela gente humilde do povo. Não só por essas características mas por aquelas do protótipo Wanderer nos demonstra que esse tipo de herói apesar de burguês não segue a moral burguesa, com seu ponto de vista objetivo e prático. Ele vai contra isso, pois a moral burguesa é pequena demais para sua alma ampla e sonhadora, idealista. A subjetividade atinge o máximo quando o nosso personagem-título comete o suicídio, sacrificando-se em nome de seu ideal - o amor por Charlotte, que é casada. Em relação a essa temática temos inúmeros exemplos:


Carta de 15/05/1771

“As pessoas simples deste lugar já me conhecem e gostam de mim, particularmente as crianças. No início, quando me aproximava delas, fazendo-lhes amistosamente uma pergunta trivial, alguns julgavam que eu queria me divertir-me às suas custas e me respondiam grosseiramente. Não me zanguei com isso, mas senti vivamente o que já muitas vezes observara: as pessoas de alta posição social conservam habitualmente uma fria distância da gente do povo; e depois há os levianos e maldosos, que fingem descer até os humildes para, com isso, melhor feri-los.”

“Bem sei que não somos iguais nem poderíamos sê-lo; mas acho que todo aquele que julga ser necessário afastar-se do que se chama povo para fazer-se respeitar é tão censurável quanto o covarde que se esconde do inimigo por medo de ser derrotado”


Nestes trechos quando fala a respeito do Embaixador, para quem trabalhou por um tempo, seu amargor anti-aristocrático torna-se evidenciado:


Carta de 24/12/1771

“O embaixador tem em causado muitos aborrecimentos, como eu já havia previsto. É o tolo mais exigente do mundo; anda de passinhos e é minucioso como uma solteirona; nunca está contente consigo mesmo e, por conseguinte, ninguém pode jamais contentá-lo. (...) É um suplício ter de trabalhar com esse homem.”

(...)

“E a miséria exemplar, o tédio que reina entre a gente estúpida que se vê por aqui! E a mania da posição social: espiam-se mutuamente, apenas para encontrar uma oportunidade de passar a perna no outro. (...) Não posso compreender como o gênero humano tem suficiente falta de senso para prostituir-se tão vulgarmente.”

(...)

“O que mais me aborrece é a inexorável condição burguesa. Sei, tão bem quanto os outros, como a diferença de classes é necessária, e quantas vantagens me proporciona: as gostaria que ela não viesse fechar meu caminho, no momento em que eu poderia ainda gozar nesse mundo um pouco de alegria, um átimo de felicidade.”


Carta de 15/03/1772


“(...) Ontem fui almoçar na casa dele: era justamente o dia em que se recebe a alta sociedade, a flor da nobreza.”

“(...) Chega a nobre senhora de S., com o senhor seu marido e a estúpida de sua filha, de peito pequeno e um espartilho ridículo afinando-lhe a cintura, ao passarem por mim, adotaram um ar desdenhoso e, como tenho por essa espécie de gente profunda antipatia, decidi ir-me embora.”



5) O perfeito-burguês: Albert


O marido de Lotte é o burguês prático e engrenado na sociedade de fins do sécuo XVIII. Ama sua esposa, dedica-se ao trabalho e resolução de objetivos práticos, não perdendo tempo com divagações e sentimentos supérfluos. Sua maneira de ver o mundo é direta e utilitária.

Podemos inclusive identificar o antagonista, o enantiômero, o Werther quiral, espelhado: Albert, o noivo e, mais tarde marido de Lotte. Não é à toa que Werther pede a arma a ser usada no atentado contra sua própria vida a ninguém menos que Albert. É este o verdadeiro ‘antagonista’ do romance, pois ele se interpõe entre Werther e Lotte impedindo a realização dos desejos de ambos, o que culmina com a impossibilidade e negação da possibilidade de realização desse amor, mais por impedimento moral burguês do que por falta de vontade de algum dos dois de viver plenamente esse amor.


Carta de 29/07/1772

"E ousaria dizê-lo? Por que não, Wilhelm? Comigo ela seria mais feliz do que com ele. Oh! Albert não é o homem capaz de satisfazer todos os desejos daquele anjo. A ele falta certa sensibilidade, falta... entenda como quiser... Quando leem juntos alguns trechos de um livro particularmente amado, o coração dele não bate em sintonia como o dela, como quando eu leio com Lotte esse mesmo livro e nossos corações pulsam como um só; e em centenas de outras circunstâncias, como quando exprimimos nossos sentimentos sobre o comportamento de outra pessoa."


Algumas ilustrações do livro para deleitar os olhos dos senhores: