
Seu estilo chiaroscuro, definido canonicamente como Realismo Psicológico (tal qual nosso titânico Machado de Assis) não se limita a escolas literárias. Sua literatura aborda o homem de seu tempo e trata de sua problemática social (Miséria material e moral, crime, prostituição), ideológica (niilismo, ateísmo, suicídio), psicológica (sonhos, delírios, pensamentos sombrios, obsessão, loucura) e até patologias (tuberculose, epilepsia, febres). Quanto à questão das patologias, a tuberculose durante o século XIX na era pré-antibiótica era uma doença temida, letal e assustadoramente comum, e é descrita de forma precisa nas obras de Dostoievski. O escritor sofria de epilepsia, e retrata fielmente a doença em diversos personagens, como Smierdiakov (Os irmãos Karamazov), Michkin (O idiota), Múrin (A senhoria), Stavroguin (Os demônios).
A principal preocupação de Dostoievski é desnudar a psique de cada personagem que cria, mostrando seus conflitos existenciais e lutas interiores, coexistência de bondade e sordidez no mesmo ser, aniquilando perspectivas maniqueístas típicas do Romantismo, pintando o fantástico da realidade através de personagens humanos -demasiado humanos- a ponto de exercerem elevado poder catártico sobre o leitor.
A atemporalidade da obra dostoievskiana é impressionante. Narrativas de uma distante e pitoresca Rússia czarista dos anos de 1860 são perfeitamente transponíveis a outros cenários e épocas devido à atualidade das questões abordadas em termos morais, psicológicos e existencialistas.
Gorki em anotação: “Para mim todo Nietzsche está em Memórias do subsolo. Neste livro –e até hoje não o sabem ler- se dá para toda a Europa a fundamentação do Niilismo e do Anarquismo. Nietzsche é mais grosseiro que Dostoievski.”
Carpeaux em “Ensaios de interpretação dostoievskiana”: “Existem poucos escritores cuja obra tenha sido tão tenazmente mal-compreendida como a de Dostoievski. Dostoievski é, senão o maior, decerto o mais poderoso escritor do século XIX; ou do século XX, pois sua obra constitui o marco entre dois séculos de literatura. Literariamente, tudo o que é pré-dostoievskiano é pré-histórico; ninguém escapa à sua influênci subjulgadora, nem sequer os mais contrários”

